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sábado, 25 de agosto de 2012

Quer renovar? Aposte no poder da mulher


Cena de E Agora, Onde Vamos?: libanesas tomam atitudes para renovar sua aldeia / Foto: Divulgação 

* Por Peri Dias

Na semana passada, Belém recebeu um festival muito bacana de filmes franceses atuais, e um deles, chamado E Agora, Onde Vamos?, mudou minha visão sobre como as mulheres são fundamentais para a transformação da sociedade - uma questão que, por sinal, tem aparecido muitas vezes nas nossas discussões sobre o tema do TEDxVer-o-Peso, atitudes que renovam.

O filme da diretora libanesa Nadine Labaki foi exibido no festival porque a produção é francesa, mas trata da rotina dos moradores de uma aldeia no Líbano, onde cristãos e muçulmanos convivem em relativa harmonia, até que conflitos no entorno da pequena vila despertam a rivalidade e a violência entre os dois grupos. Dispostas a evitar que a intolerância provoque mais sofrimento, as mulheres da vila se unem e criam estratégias geniais para convencer seus maridos e filhos a viver em paz. Idiotizados pelas ideias bem machistas de lavar a honra com sangue e de medir forças com o adversário a qualquer custo, os homens encaminham a comunidade para a autodestruição, mas elas agem para demonstrar que uma nova convivência é possível e desejável.

Até assistir a essa história, ao ouvir argumentações sobre o poder feminino de transformação social, eu costumava pensar “Sim, as mulheres são fundamentais para as mudanças, mas isso é porque elas são metade da população, assim como os homens”. Remoendo o filme no caminho para casa, porém, eu me dei conta de que, na verdade, o poder da mulher vai um pouco além. De fato, elas são 50% da humanidade, portanto, quando elas tomam atitudes que renovam, meio caminho já está andado. Porém, o que torna as mulheres diferentes dos homens nesse aspecto é a influência que elas têm sobre os outros 50%. Homens ainda têm mais poder político e econômico, como mostram as estatísticas sobre salários e representação no Congresso, por exemplo, mas em contrapartida, as mulheres são normalmente quem tem mais contato com os filhos, em quase todas as sociedades, e poucas coisas transformam mais o mundo do que a educação que se dá às crianças.

Uma parte dessa ligação íntima das mães com seus filhos foi determinada pela natureza. Mulheres carregam bebês dentro delas por nove meses, sentindo cada movimento daquele serzinho. Depois, trazem essas novas vidas ao mundo e, por alguns segundos, mesmo já sendo duas pessoas diferentes, os dois se veem fisicamente ligados, amarrados um ao outro por um cordão. A partir daí, elas alimentam os pequenos com algo que seu próprio corpo produz. Enquanto o bebê suga uma parte dela, ela o segura firme, quase o abraça. E o leite que elas fabricam especialmente para outra pessoa, além de alimentar, protege o organismo meio frágil dos menores de uma série de doenças. E só assim eles conseguem crescer. É uma relação linda e, dizem os especialistas, marcante para o resto da vida.

Só por esse razão, já daria para concordar que elas são a figura central das famílias. A sociedade, porém, se encarregou de reforçar esse papel, deixando para as mulheres a tarefa de criadoras. Isso está mudando e é bom que mude. Os homens têm a obrigação de assumir mais responsabilidade pela criação dos filhos, mas fato é que a mulher ainda é quem está a cargo disso.

As mulheres hoje saem para trabalhar, exercem posições-chave nas empresas e nos governos e renovam a sociedade das mais diversas maneiras: como cientistas, médicas, administradoras, policias, empregadas domésticas, como presidentes da República. Da mesma forma que os homens. O que as diferencia é que além de fazer tudo o que os homens fazem, elas ainda concentram, no Brasil e em quase todo o mundo, a função social de educadoras, no sentido mais amplo do termo. Elas são a maioria esmagadora nas carreiras de magistério e ensino básico, enfermagem e cuidados com a criança, e ainda cuidam mais de perto dos próprios filhos. Mais do que os pais, são as mães que acompanham o desenvolvimento físico e emocional das crianças, estimulam um desempenho escolar adequado, ensinam regras básicas de convivência em grupo. São elas que vestem os filhos, compram e preparam os alimentos, levam ao médico e dão vacina às crianças e adolescentes na maior parte dos lares. Pesquisas mostram que uma quantidade impressionante de brasileiros sequer conhecem seu pai.

Os estudos também mostram que mulheres são menos egoístas nos gastos pessoais. Quando uma mulher recebe aumento de salário, ela gasta a maior parte do ganho extra com os filhos, enquanto homens nem sempre fazem o mesmo. Não é por acaso que o governo brasileiro, seguindo recomendações de organismos como a ONU, oferece os auxílios financeiros às famílias pobres em nome da mulher. Sem contar que, quando um casamento se desfaz, quase sempre são elas que levam a criação dos filhos adiante.

A lista de exemplos de como as mulheres são mais decisivas do que os homens na maneira como crescemos e somos educados é enorme. E se uma boa educação é o caminho para a renovação, a conclusão óbvia é: mulheres são mais decisivas do que homens na renovação da sociedade. É aí que reside o seu poder transformador. Para além de serem 50% da humanidade, elas são o caminho para transformar 100% de nós. Existe um ditado, acho que indiano, que diz algo mais ou menos como “Dê formação a um menino e você criará um cidadão. Dê formação a uma menina e você criará uma família de cidadãos”.

Trazendo essa discussão sobre a mulher como protagonista da paz coletiva para a nossa realidade em Belém, basta lembrar que o mais grandioso evento dessa cidade, a procissão do Círio de Nazaré, pode ser descrito como um milhão de fiéis chegando ao limite da resistência física para mostrar amor e gratidão...a uma mulher! A uma mãe. É curioso que a figura principal do Catolicismo seja Jesus Cristo, mas que os belenenses expressem o máximo de seu carinho homenageando a mãe dele. Maria é vista pelos católicos como misericordiosa, acolhedora, intercessora. Para eles, ela compreende os incompreendidos, atende os pedidos urgentes, protege quem está vulnerável. Ela é o canal mais acessível à imensidão perfeita que é seu filho. De fato, mulheres costumam ser assim, cuidam de si e dos outros também. Mulheres são as representações vivas da renovação, seja em uma aldeia do Líbano, como a do filme que me fez pensar nisso tudo, seja nas ruas abarrotadas da Belém do Círio de Nazaré, seja em qualquer parte. São elas que dão a luz e à luz. E a nós, homens, só cabe apoiar a luta delas por mais poder. Essa é a atitude mais renovadora que podemos tomar.