quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Trânsito de Belém irrita, humilha e mata

Garagem de um prédio na Travessa Quatorze de Março: desrespeito e impaciência no trânsito / Foto: Peri Dias
 
* Por Peri Dias

Olhando a foto pode até parecer engraçada a ênfase com que os moradores deste prédio na Travessa Quatorze de Março, bem pertinho da Basílica de Nazaré, lembram os motoristas de que é proibido estacionar em frente ao portão, mas imagine quantas vezes o autor desse aviso se viu bloqueado, sem poder entrar ou sair de casa, para chegar ao ponto de pichar o próprio patrimônio.

O desrespeito às leis de trânsito em Belém sinceramente me impressiona. Ele começa pelo própria Prefeitura, que para desafogar o trânsito cria cruzamentos sem faixa de pedestres ou em que o fluxo de carros não para nunca - ora vem de uma rua, ora da outra. Ganha corpo com aqueles motoristas que dão aquela esticadinha quando o farol já fechou ou com os ciclistas que andam na contramão e não param em hipótese alguma, mesmo quando tem gente atravessando na faixa – e isso é bem comum em Belém!

Por fim, o ápice do desrespeito se materializa nos muitíssimos carros estacionados nas calçadas, a qualquer hora do dia, obrigando o pedestre a ir para o meio da rua para continuar viagem. Já vi mãe com carrinho de bebê tendo que se enfiar no meio do trânsito para transpor uma dessas barreiras. O pior foi o dia em que me deparei com um homem em uma cadeira de rodas prostrado em frente a um desses carros parados de comprido, na calçada, provavelmente se perguntando em que momento ele conseguiria seguir em frente, se na calçada não tinha mais jeito. Quão humilhante é alguém se ver impedido de ir e vir por causa de um "gênio" que achou que o conforto dele é mais importante do que o direito de todo o resto da população?

O que mais impressiona é que em Belém ficou meio estabelecido que parar o carro na calçada é aceitável, diante da falta de vagas. Toda vez que vejo um motorista saindo do carro, após estacionar onde não devia – e isso acontece quase diariamente - reparo em sua postura. Na grande maioria das vezes, não consigo encontrar um vestigiozinho de vergonha pela transgressão. Não é que a pessoa parou em lugar proibido, mas saiu rapidinho e com cara de "eu sei que estou errado, desculpa aí, mas só vou comprar um negócio ali e já volto'" Isso já seria ruim, mas, não, estamos uma fase atrás! A pessoa para o carro na calçada estreita, sai bem tranquila e não está nem aí se alguém vai achar ruim. Ela realmente se sente no direiro de parar naquele pedaço do passeio público.

Além de irritar e humilhar, o desrespeito no trânsito obviamente também mata. Segundo a Agência Pará, 98 pessoas morreram por acidentes de trânsito em Belém, em 2011. Não é um número alarmante, mas, se pensarmos que muitas dessas mortes podiam ser facilmente evitadas se tivéssemos mais cuidado, temos que nos perguntar: de que atitudes renovadoras Belém precisa para ter um trânsito mais razoável? Dê sua contribuição pelo blog ou pelo Facebook do TEDx Ver-o-Peso!

Confira também os outros posts da série Desafios de Belém:
- O que te incomoda em Belém?
- De tirar o sono
 
 

terça-feira, 6 de novembro de 2012

De tirar o sono

Homem dorme na calçada da Travessa Padre Eutíquio, em frente a uma loja de colchões / Foto: Peri Dias

* Por Peri Dias

Dentro da loja de colchões da Travessa Padre Eutíquio, em um bairro valorizado de Belém, clientes experimentam os modelos mais confortáveis, em busca do companheiro ideal para um sono confortável. Do lado de fora, um homem jovem está deitado na calçada, tentando dormir em meio ao barulho dos carros e ao calor da tarde belenense.

Ironia do Capitalismo, produzimos bens da melhor qualidade, mas só alguns podem comprar. Quem não pode, se vira com o que tem: o asfalto, a fumaça, a intimidade devassada.

A pobreza tem diversas caras e não se manifesta só em cenas assim, de gente dormindo pelas ruas, mas quando ela aparece tão escancarada, não temos saída, senão refletir se esse é o país que queremos. E em Belém, essas cenas estão por toda parte.

O que uma imagem como essa desperta em você? E o que Belém pode fazer para melhorar a vida da sua população mais pobre?

Dê sua opinião aqui no blog ou no Facebook do TEDx Ver-o-Peso. É hora de falarmos dos nossos desafios!





segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O que te incomoda em Belém?

Vista a partir do Rio Guamá: crescimento traz novos desafios para a capital do Pará / Foto: Peri Dias

* Por Peri Dias

Ao fim de uma disputa bem imprevisível, os moradores de Belém descobriram, em 28 de outubro, quem será o homem no comando do município, a partir de 2013. O candidato do PSDB, Zenaldo Coutinho, venceu seu adversário Edmilson Rodrigues, do PSOL, e conquistou o direito de governar a cidade pelos próximos quatro anos.

Como em outros municípios Brasil afora, a campanha pelo cargo de prefeito levantou discussões importantes sobre o futuro da cidade e sobre como seus moradores pretendem chegar lá. Passado o calor do combate, porém, os debates começam a esfriar, e a reflexão sobre o destino de Belém volta para a gaveta dos assuntos esquecidos.

Nós, do TEDx Ver-o-Peso, acreditamos que discutir os problemas da comunidade é o primeiro passo para renová-la, e como renovação é o tema do nosso evento em 2013, queremos dar uma forcinha para prolongar esse clima de reflexão sobre Belém.

Fizemos uma seleção das fotos tiradas pela nossa equipe nas ruas da cidade, para ilustrar alguns dos desafios que os belenenses enfrentam diariamente. Vamos postar uma imagem por dia, ao longo dessa semana, começando pelo post de amanhã, que retrata a desigualde de renda. As fotos são amadoras porque a graça é mesmo dar esse tom de flagrante do cidadão comum. São imagens que qualquer um poderia ter tirado no caminho para casa - e por isso mesmo, elas dizem tanto sobre a cidade.

Você pode participar enviando seus próprios registros dos desafios dos belenenses, além de dar sua opinião sobre como superá-los. Diga para todo mundo: o que te incomoda em Belém?

sábado, 25 de agosto de 2012

Quer renovar? Aposte no poder da mulher


Cena de E Agora, Onde Vamos?: libanesas tomam atitudes para renovar sua aldeia / Foto: Divulgação 

* Por Peri Dias

Na semana passada, Belém recebeu um festival muito bacana de filmes franceses atuais, e um deles, chamado E Agora, Onde Vamos?, mudou minha visão sobre como as mulheres são fundamentais para a transformação da sociedade - uma questão que, por sinal, tem aparecido muitas vezes nas nossas discussões sobre o tema do TEDxVer-o-Peso, atitudes que renovam.

O filme da diretora libanesa Nadine Labaki foi exibido no festival porque a produção é francesa, mas trata da rotina dos moradores de uma aldeia no Líbano, onde cristãos e muçulmanos convivem em relativa harmonia, até que conflitos no entorno da pequena vila despertam a rivalidade e a violência entre os dois grupos. Dispostas a evitar que a intolerância provoque mais sofrimento, as mulheres da vila se unem e criam estratégias geniais para convencer seus maridos e filhos a viver em paz. Idiotizados pelas ideias bem machistas de lavar a honra com sangue e de medir forças com o adversário a qualquer custo, os homens encaminham a comunidade para a autodestruição, mas elas agem para demonstrar que uma nova convivência é possível e desejável.

Até assistir a essa história, ao ouvir argumentações sobre o poder feminino de transformação social, eu costumava pensar “Sim, as mulheres são fundamentais para as mudanças, mas isso é porque elas são metade da população, assim como os homens”. Remoendo o filme no caminho para casa, porém, eu me dei conta de que, na verdade, o poder da mulher vai um pouco além. De fato, elas são 50% da humanidade, portanto, quando elas tomam atitudes que renovam, meio caminho já está andado. Porém, o que torna as mulheres diferentes dos homens nesse aspecto é a influência que elas têm sobre os outros 50%. Homens ainda têm mais poder político e econômico, como mostram as estatísticas sobre salários e representação no Congresso, por exemplo, mas em contrapartida, as mulheres são normalmente quem tem mais contato com os filhos, em quase todas as sociedades, e poucas coisas transformam mais o mundo do que a educação que se dá às crianças.

Uma parte dessa ligação íntima das mães com seus filhos foi determinada pela natureza. Mulheres carregam bebês dentro delas por nove meses, sentindo cada movimento daquele serzinho. Depois, trazem essas novas vidas ao mundo e, por alguns segundos, mesmo já sendo duas pessoas diferentes, os dois se veem fisicamente ligados, amarrados um ao outro por um cordão. A partir daí, elas alimentam os pequenos com algo que seu próprio corpo produz. Enquanto o bebê suga uma parte dela, ela o segura firme, quase o abraça. E o leite que elas fabricam especialmente para outra pessoa, além de alimentar, protege o organismo meio frágil dos menores de uma série de doenças. E só assim eles conseguem crescer. É uma relação linda e, dizem os especialistas, marcante para o resto da vida.

Só por esse razão, já daria para concordar que elas são a figura central das famílias. A sociedade, porém, se encarregou de reforçar esse papel, deixando para as mulheres a tarefa de criadoras. Isso está mudando e é bom que mude. Os homens têm a obrigação de assumir mais responsabilidade pela criação dos filhos, mas fato é que a mulher ainda é quem está a cargo disso.

As mulheres hoje saem para trabalhar, exercem posições-chave nas empresas e nos governos e renovam a sociedade das mais diversas maneiras: como cientistas, médicas, administradoras, policias, empregadas domésticas, como presidentes da República. Da mesma forma que os homens. O que as diferencia é que além de fazer tudo o que os homens fazem, elas ainda concentram, no Brasil e em quase todo o mundo, a função social de educadoras, no sentido mais amplo do termo. Elas são a maioria esmagadora nas carreiras de magistério e ensino básico, enfermagem e cuidados com a criança, e ainda cuidam mais de perto dos próprios filhos. Mais do que os pais, são as mães que acompanham o desenvolvimento físico e emocional das crianças, estimulam um desempenho escolar adequado, ensinam regras básicas de convivência em grupo. São elas que vestem os filhos, compram e preparam os alimentos, levam ao médico e dão vacina às crianças e adolescentes na maior parte dos lares. Pesquisas mostram que uma quantidade impressionante de brasileiros sequer conhecem seu pai.

Os estudos também mostram que mulheres são menos egoístas nos gastos pessoais. Quando uma mulher recebe aumento de salário, ela gasta a maior parte do ganho extra com os filhos, enquanto homens nem sempre fazem o mesmo. Não é por acaso que o governo brasileiro, seguindo recomendações de organismos como a ONU, oferece os auxílios financeiros às famílias pobres em nome da mulher. Sem contar que, quando um casamento se desfaz, quase sempre são elas que levam a criação dos filhos adiante.

A lista de exemplos de como as mulheres são mais decisivas do que os homens na maneira como crescemos e somos educados é enorme. E se uma boa educação é o caminho para a renovação, a conclusão óbvia é: mulheres são mais decisivas do que homens na renovação da sociedade. É aí que reside o seu poder transformador. Para além de serem 50% da humanidade, elas são o caminho para transformar 100% de nós. Existe um ditado, acho que indiano, que diz algo mais ou menos como “Dê formação a um menino e você criará um cidadão. Dê formação a uma menina e você criará uma família de cidadãos”.

Trazendo essa discussão sobre a mulher como protagonista da paz coletiva para a nossa realidade em Belém, basta lembrar que o mais grandioso evento dessa cidade, a procissão do Círio de Nazaré, pode ser descrito como um milhão de fiéis chegando ao limite da resistência física para mostrar amor e gratidão...a uma mulher! A uma mãe. É curioso que a figura principal do Catolicismo seja Jesus Cristo, mas que os belenenses expressem o máximo de seu carinho homenageando a mãe dele. Maria é vista pelos católicos como misericordiosa, acolhedora, intercessora. Para eles, ela compreende os incompreendidos, atende os pedidos urgentes, protege quem está vulnerável. Ela é o canal mais acessível à imensidão perfeita que é seu filho. De fato, mulheres costumam ser assim, cuidam de si e dos outros também. Mulheres são as representações vivas da renovação, seja em uma aldeia do Líbano, como a do filme que me fez pensar nisso tudo, seja nas ruas abarrotadas da Belém do Círio de Nazaré, seja em qualquer parte. São elas que dão a luz e à luz. E a nós, homens, só cabe apoiar a luta delas por mais poder. Essa é a atitude mais renovadora que podemos tomar.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

O que Belém tem a ganhar com um TEDx?



Mariana e Alice mostram uma pequena parte da rede que se formou 
entre as pessoas que participaram da primeira edição do TEDxVer-o-Peso 
em Belém, em 2011. Crédito: Karina Miotto


* por Peri Dias


“Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar/ Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar / E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar / E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar”
Os versos que abrem a música Valsinha, de Chico Buarque, além de lindos, descrevem bem a sensação que me dá, quando penso no que Belém tem a ganhar com um TEDx.
Este não é um evento para gerar obras faraônicas, como a Copa, ou para lotar hotéis com  milhares de turistas, como uma grande feira de negócios, mas é a ocasião certa para trazer às pessoas de Belém, e também às de fora, um olhar inédito sobre a cidade. É a chance de enxergar nela uma expressão diferente, sentir um perfume que não se conhecia, perceber uma graça que não se via até então. Participar do TEDxVer-o-Peso é como tirar Belém para uma valsinha. E vê-la rodar, rodar, rodar.
Nos mais de mil locais do mundo que já receberam um TEDx, o espírito sempre foi esse: reunir pessoas interessantes, criativas e inspiradoras para falar de temas relevantes e que tenham um certo sabor local.
Os palestrantes do TEDx muitas vezes são figuras anônimas da cidade onde o evento se realiza. Circulam todos os dias por aquele cenário, com suas histórias incríveis escondidas atrás do vaivém louco dos dias comuns. Você até pode ter esbarrado em algum palestrante nesses dias comuns, mas sem chance de saber que esse cara pode mudar sua visão de mundo só contando um “causo” simples da vida dele.
Outros palestrantes vêm de fora, dos mais diversos cantos do mundo, prontos para falar de ideias bacanas e ouvir outras ainda mais intrigantes. Soma-se a isso a contribuição dos participantes do TEDx, em sua maioria gente daquela comunidade que hospeda o evento, carregados de conteúdo e estimulados, pelas palestras que assistem, a absorver, refletir e compartilhar as novidades em que pensaram. No meio disso tudo, performances de artistas e discussões online sobre o que está acontecendo naquele exato momento ajudam a engrossar o caldo. Como resultado, gente que normalmente não se falaria ou nem se conheceria tem a chance de se encontrar, se expressar, pensar de maneira inovadora sobre temas que muitas vezes afetam aquela cidade e, no fim do evento, sair por aí, disseminando o que entenderam e transformando a realidade local.
Na Valsinha de Chico Buarque, conforme a letra se desenrola, percebe-se que só o fato de o homem olhar para sua mulher de um jeito diferente provoca uma mudança nela, que fica mais vaidosa. Depois a mudança se reflete nos dois, que saem de braços dados pela praça, e a onda  de carinho vai se espalhando pela cidade, até atingir o mundo, que finalmente amanhece em paz.
Não quero ser tão otimista a ponto de achar que um evento pode mudar o mundo (bem, em alguns casos até pode...), mas certamente ele pode gerar a tal onda de “novos olhares” sobre a cidade, sobre o planeta e sobre cada um individualmente. E quando pessoas interessantes e habilidosas, como as que comparecem ao TEDx, recebem uma injeção de ideias inspiradoras, pode ter certeza que daí vai sair coisa boa.

                               Frase escrita no mural do evento passado